O seu negócio precisa de si. Mais do que nunca.

O Estreito de Ormuz está efectivamente fechado, causando níveis sem precedentes de disrupção nas cadeias de abastecimento. A inflação voltou: energia, matérias-primas, fertilizantes. O choque nas commodities está a alastrar e a pressão sobre as margens está a chegar a todas as empresas que não conseguem repercuti-la nos preços. Os mercados de crédito estão a apertar, o custo do capital está a aumentar, e as janelas de oportunidade para refinanciamento que pareciam confortáveis há dois anos já não o são.

É certo que as empresas precisam de CFOs com um olho no futuro. Mas o outro olho, para não falar da cabeça, do coração e de ambas as mãos, tem de estar firmemente no volante. Especialmente no que toca à caixa, especialmente nos tempos que correm.

Já vi este filme antes, mas noutro hemisfério

A minha passagem pelo Brasil fez-me rever muitos conceitos enraizados no mindset de gestores europeus. Vinha de um país onde as taxas de juro chegaram a valores negativos, a liquidez era abundante e os bancos competiam entre si para conceder crédito. Por isso, qualquer crise de tesouraria seria, em princípio, resolvida pelo banco.

O primeiro contacto com empresas brasileiras mostrou-me uma realidade completamente diferente. Algumas operavam com muita caixa acumulada — e havia inclusivamente políticas internas que obrigavam a manter o equivalente a dois meses de salários e pagamentos a fornecedores. Mais tarde, já como CFO de uma empresa brasileira, os próprios estatutos impediam a distribuição de dividendos se essa reserva de caixa não estivesse garantida.

"Para os empresários brasileiros, uma crise de tesouraria pode ser fatal. Aprendi que não devemos esperar por uma para lhe dar a devida atenção."

Apesar de os nossos mercados serem mais estáveis, também já tivemos a nossa dose de black swans: a crise de 2008, a crise das dívidas soberanas e a subida de preços e das taxas de juro pós pandemia. Confiar apenas na normalidade do mercado é perigoso. O contexto que vivemos hoje confirma-o.

Os sinais que não pode ignorar

A tesouraria mal gerida raramente anuncia uma crise de forma brusca. Vai enviando sinais. Estes são os alertas que merecem atenção imediata:

  • Dependência constante de descobertos bancários ou linhas de crédito de curto prazo, mesmo com faturação em crescimento.
  • Prazo médio de recebimentos dos clientes superior a 90 dias, sem políticas de crédito ou follow-up eficaz.
  • Prazo médio de pagamentos a fornecedores inferior a 60 dias, sem negociação de melhores condições.
  • Ausência de previsões de tesouraria para as próximas 12 semanas, ou atualização apenas mensal.
  • Excesso de inventários ou stocks imobilizados, sem rotação adequada ao ciclo de vendas.
  • Falta de visibilidade sobre compromissos futuros: impostos, reembolsos de dívida, investimentos planeados.
  • Utilização superior a 80% das linhas de crédito disponíveis, com pouco espaço para imprevistos.
  • Gestão reativa em vez de proativa: decisões tomadas apenas quando há rutura ou pressão do banco.

A alavanca que nunca muda

A melhor forma de garantir o futuro do seu negócio continua a ser: cash flow livre, positivo e sustentável.

Ninguém sabe para onde vão as taxas de juro, quando os mercados de crédito podem gripar, ou quanto tempo durará este choque devido ao encerramento do Estreito de Ormuz. O que sabemos é que as empresas que saírem do outro lado intactas serão as que souberem como e quando proteger o cash flow.

E a alavanca mais poderosa que tem? A mesma de sempre: working capital.